sábado, 2 de maio de 2009

Opinião sobre IntenCIDADE 1ª: VOAR


OPINIÃO/TEATRO



Intensidade no limite


O Teatro Sarcáustico não poderia ter inventado nome melhor. No espetáculo IntenCidade 1ª: Voar, em cartaz até amanhã na Usina do Gasômetro (detalhes na capa do Guia hagah), a relação com o universo urbano não se resume a um trocadilho. Para contar três histórias de amor – dois clientes por uma prostituta de rua, duas mulheres entre si, um pedófilo e uma criança de sete anos –, o diretor Daniel Colin situa a ação no Terraço da Usina. A escolha agrega implicações de espaço e tempo, transformando a cidade em cenário e aproveitando o entardecer para reforçar a progressiva deterioração das relações em cena.

Intensidade, desta vez com “s”, também caracteriza o espetáculo. As marcas registradas do Sarcáustico estão em cena de maneira quase febril: há TVs ligadas cruzando o palco, citações à cultura de massa, um humor impiedoso, um declarado descompromisso com qualquer fórmula que não a própria. O excesso e a dificuldade de comunicação dos tempos modernos são expostos na forma de cenas que se cruzam e que dialogam. Tudo é intenso na cidade e no Sarcáustico.

Uma intensidade tal que acaba por expor problemas. A exigência de atuações exacerbadas e no limite (emocional e físico, pois os atores aproveitam até a beirada do terraço) revela a irregularidade do elenco. O texto de Felipe Vieira de Galisteo também paga o preço: assumida e extremadamente confessional, abre mão de uma construção dramatúrgica mais articulada e consequente. Mas são problemas característicos e inevitáveis de quem persegue uma trajetória original. IntenCidade é uma declaração de amor e ódio à grande metrópole, e serve também como uma declaração de princípios de um grupo que se afirma.

RENATO MENDONÇA
(Jornal "Zero Hora", de 02 de Maio de 2009)
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