segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As cenas de 2010 que Renato Mendonça jamais esquecerá

"Listo abaixo as 'Seis ou Sete Melhores Cenas do Teatro Gaúcho em 2010'. Comigo é assim: à medida que o tempo passa, o todo da encenação vai se esvanecendo, mas restam brilhantes e inesquecíveis algumas cenas, aquelas que realmente me tocaram.

Um exemplo: fui cobrir o Festival de Teatro de Curitiba em 1997, pouco depois de minha mãe morrer. Em Curitiba, eles têm o que chamam de Fringe – montagens fora da programação principal, destinadas ao front mais alternativo. Olhei no jornal e vi que estava em cartaz 'Cartas para Não Mandar', uma montagem de Felipe Hirsch, estrelada por Guilherme Weber. A parceria de Hirsch e Weber só ganharia reconhecimento nacional em 2000, com 'A Vida É Cheia de Som e Fúria', mas o nome da peça me motivou – eu também devia ter dito coisas que nunca falei e ter mandado cartas que nunca mandei.

A encenação de 'Cartas para Não Mandar' não podia ser mais despojada – Weber, uma cadeira, luz e emoção. Ainda era o rascunho do espetáculo final, mas fiquei absolutamente tocado e chorei na cena final, que se dissipava ao som da lírica 'In My Life', dos Beatles. Dessa cena, jamais esquecei – naquele momento, era a imagem certa, no momento certo, na dose certa.

Como as cenas de 2010 que enumero:

1 – Áurea Baptista dando o texto de Mario Benedetti em 'Stand Up Drama', aquele da mulher com rosto deformado. A performance foi tão poderosa que praticamente valeu a indicação de Áurea como melhor atriz. Ah: Áurea substituiu Margarida Leoni Peixoto, que também foi brilhante neste pequeno e inesquecível monólogo.

2 – O voo de Fábio Cunha, Aline Karpinski, Juliana Rutkowski e Iandra Cattani em 'Hybris'. Depois de oprimir o público com paredes que se moviam, 'Hybris' se transferia para a arquibancada do Hipódromo do Cristal, e o quarteto se lançava no espaço usando rappel, em uma afirmação categórica de liberdade individual.

3 – A cena em que o elenco de “Wonderland” apresenta a música-tema do espetáculo, em um clima de rigor técnico e levada de Broadway. Sem falar na impagável cena em que os vários gêneros de teatro de Porto Alegre são apresentados. Exuberância técnica + criatividade + irreverência = “Wonderland”.



4 – O sangue que escorre da cadeira em que o professor Marcelo Adams brutaliza a aluna Luisa Herter é o coroamento de uma jornada ao longo da incomunicabilidade, da violência e da opressão. Muito além da discussão sobre a maneira como a diretora Margarida Leoni Peixoto releu o texto de Eugène Ionesco 'A Lição', essa imagem (e o som do líquido escorrendo) representou o mal absoluto e inútil.


5 – A utilização do arroz como principal elemento coreográfico em 'O Osso de Mor Lam' rendeu a magnífica cena em que o pó se espalha pelo palco (e pela platéia, para desespero de alguns). Um achado: a poeira de arroz sublinha o esforço dos negros para se embranquecerem socialmente, mas exibe também como a forma de produção define a vida de todos nós, gruda na pele, violenta nossa personalidade.

6 – O jogo de amarelinha final entre os irmãos (Vinicius Meneguzzi e Sofia Ferreira) de 'Agora Eu Era'. Uma imagem simples para explicar a complexidade da vida: nossa vocação e desafio é criarmos o desenho de nossa amarelinha. Somos nós que, inevitavelmente, traçamos os quadrados do jogo e definimos o que é Céu e Inferno. Houvesse um prêmio de Diretor Revelação, e João Pedro Madureira teria grandes chances de vencer – ainda em 2010, ele dirigiu o excelente 'Parasitas'.

7 – Várias cenas de 'Clube do Fracasso' entrariam na lista. A montagem do Teatro Rústico captura o público em uma armadilha habilidosa. Somos convidados a nos juntar a um clube de fracassados, mas o que se vê em cena é uma encenação e um desempenho do elenco brilhantes. O fato de não haver maiores recursos de produção é a provocação final: a mágica se faz apenas com as confissões, os corpos e os talentos dos atores. Será que eu não sou brilhante também?
(Por Renato Mendonça - Blog Relato Mendonça)
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