sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Questões Clássicas ou Contemporâneas

Achei interessante este pequeno artigo de Juremir Machado...
Tem muito a ver com nossas discussões sarcáusticas!
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"Papo cabeça sob o sol de 40 graus"

Sejamos minimalistas.
Ao máximo.
Gilles Deleuze e Félix Guattari defenderam em Kafka o paradoxo da obra maior numa literatura menor.
Menos dramática e menos carregada de intrigas. Mais exaustiva por ser menos realista. Mais realista por ser menos possível. O Kafka de “A Metamorfose” é mais verossímil que Shakespeare inteiro. É só ler “Otelo”.
De “Romeu e Julieta” nem vamos falar. É novela das seis. Todo mundo sabe. Acordar transformado num inseto aparece como muito mais verossímil do que todas as coincidências e mortes em cascata das peças de Shakespeare.
Uma mostra do resumo de “Otelo”: “Iago instila no espírito do mouro o veneno do ciúme e Otelo pede provas. Iago descobre a prova sob a forma de um lenço, presente de Otelo, que fora perdido por Desdêmona e encontrado por Emília, dama de companhia de Desdêmona. Iago põe o lenço no quarto de Cássio que, ao encontrá-lo, faz presente dele a Bianca, sua amante. Iago conta a Otelo ter visto Cássio com o lenço e, quando Desdêmona não pode mostrá-lo ao marido, o general jura vingar-se de Desdêmona e de Cássio”.
Simples. Claro. Cristalino.
Já se vê que Shakespeare não fez os resumos das suas peças. Mas não economizou confusões.
Ao final de “Otelo”, Cássio mata Rodrigo; Otelo mata Desdêmona; Iago mata Emília; Otela suicida-se. Cartas descobertas nos bolsos de Rodrigo permitem desvendar toda a trama. É novela de televisão.
Shakespeare é um gênio. Sintetiza a alma humana e escreve frases inesquecíveis. As suas tramas, porém, são de um tempo, do teatro de uma época, e parecem-nos infantis. Otelo, quando se acha traído, passa a mão na testa como fazia recentemente um outro personagem de novela . Só faltava mugir.
A sofisticação de Shakespeare era popular e, como enredo e fabulação, aos olhos de hoje, pode ser revelar chata e totalmente inverossímil. Mudaram as convenções.
Todas as áreas de conhecimento evoluíram. A física atual é mais desenvolvida que a dos gregos. Só a arte teria regredido? Só os clássicos podiam ser gênios em literatura? Nada disso. Os grandes do passado chegaram antes às questões de sempre, aos dilemas fundamentais. Essa é a grande vantagem deles.
Chegaram primeiro ao pote. O clássico é um efeito de competência hiperdimensionado pela precedência, o tratamento adequado a temas recorrentes. Shakespeare e Machado de Assis são gênios. Mas escrever como eles, hoje, seria medíocre. Passou o tempo do cânone latino. Passará o tempo do cânone renascentista, etc.
Adeus à modernidade. Nunca houve tantos escritores geniais como agora. Gabriel Garcia Márquez, Mario Vargas Llosa, Lobo Antunes, Michel Houellebecq, Paul Auster, Don DeLillo e Maurice Dantec, para não alongar a relação, são tão geniais quanto foram Proust, Balzac e Flaubert em seus tempos.
Mas só teremos certeza disso daqui a uns trezentos anos.
Escrever, depois do esgotamento dos assuntos fundamentais, tornou-se muito mais difícil e exige muito mais talento. Assim como Pelé e Garrincha não andariam em campo no futebol atual, Shakespeare e Machado de Assis, salvo se mudassem tudo, iriam para o banco de reservas. Só Kakfa seria titular em qualquer época histórica.
Kafka continua intemporal.
Não tem as marcas da inverossimilhança que só as convenções de outra época justificavam. Basta de conversa fiada. A literatura não morreu. Os mortos não governam os vivos. A genialidade literária jamais será monopólio dos espectros. Assim como os escritores de hoje precisam dar mais, num regime mais exigente, também os leitores são mais preparados. Conhecedores das convenções, reclamam graus de verossimilhança ou contratos de leitura muito mais refinados. O público de Shakespeare, assim como os leitores de então, era infantil se comparado aos leitores avisados de agora. Só por isso a inverossimilhança total era aceita.
Na pós-modernidade, a crônica toma o lugar do ensaio.
O ensaísmo maior, a exemplo da literatura clássica, alimentava-se da sua pompa e da sua extensão.
Pregava o “sejamos maximalista, ao mínimo”. Quando morre um estilo, resta a provocação. O cânone é sempre um golpe de força. No Ocidente, foi o dos machos brancos. Todos os hábitos, cedo ou tarde, cedem lugar a novas obsessões.
A genialidade não passa de uma circunstância a posteriori. Kafkiana.

por Juremir Machado da Silva
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