domingo, 18 de setembro de 2011

O email singelo de Júlia Ludwig sobre "Wonderland"

(Foto: Luciane Pires Ferreira)


"Caros colegas e amigos da wonder porto alegre
do wonder dad
dos wonder bares
das wonder ruas
desta wonder época

Quero tentar registrar e traduzir um pouco da experiência que vivenciei ontem, ao lado de vocês, que me transportaram para muito longe e para muito dentro sem sair das tão conhecidas paredes do Gasômetro.
Fico feliz por testemunhar o espetáculo do ponto de vista de quem os acompanha desde o Gordos, a peça de formatura de alguns no ano que eu entrava no departamento. Fico feliz por me sentir parte de uma nova geração de pessoas que fazem teatro em Porto Alegre, e de ver essa geração desabrochar a custas de muito trabalho, dedicação, seriedade e compromisso. Fico feliz de ver um espetáculo profissional, que poderia muito bem ocupar seu espaço em festivais e temporadas pelos palcos do mundo, saindo do DAD, das oficinas promovidas pelo grupo, dos corpos-mentes-desejos, desenvolvimento de pessoas tão próximas. Fico feliz de ver nossa geração ocupando seu lugar neste tempo e neste espaço, com competência e talento. De reconhecer as influências: do Depósito, da Terreira, do Zé Celso, dos trabalhos anteriores do grupo – tudo revisto de forma criativa e transformado em algo muito próprio. Ver que hoje vocês ocupam de fato um espaço que outros grupos importantes na nossa cidade já ocuparam. Ver que a renovação é necessária, mas só veio com muito trabalho, um trabalho de linguagem cultivado há muitos anos. Penso: será que inventamos nossa linguagem ou simplesmente a descobrimos. Inventamos algo ou só tiramos as tralhas pra descobrir algo que sempre esteve lá? Vendo a trajetória de vocês, pensando no trabalho que vou desenvolvendo nesse sentido, ainda tatiando no escuro, parece que é uma trajetória que vai ao mesmo tempo se construindo pra dentro e pra fora. Sabemos que queremos dizer algo, sabemos que tem jeitos de dizer que nos agradam mais, mas não sabemos bem que algo é esse. E vamos trabalhando meio assim, meio no escuro, jogando coisas no espaço, juntando tudo, recriando sentidos e formas, investindo no insondável. Vendo Wanderland identifico esse processo que começou a tantos anos atrás e agora chega num ponto de maturidade lindo de se testemunhar.
Além disso dar sequência ao trabalho de vocês mesmos, e ser a maturidade do trabalho de vocês mesmos, é também a continuação de um trabalho de muitos e muitos mais anos atrás – de outras pessoas na cidade que verdadeiramente investiram no teatro como algo capaz de comunicar – e criaram suas linguagens e discursos. O teatro tem essa coisa da tradição: nos usamos de técnicas que alguém nos transmitiu pessoalmente, coisas que já vimos, que já sentimos, vamos recortando isso e indo em busca de nós mesmos – mas eis que encontrar a nós mesmos, eis que ao encontrar exatamente o que queremos dizer, eis que ao encontrar exatamente como queremos dizer, estamos também dando voz a uma época, a nossa época. Estamos dando voz aos mestres que nos passaram o bastão. Estamos dando voz aos antepassados. Estamos ligados a uma história e uma tradição. Ao encontrar a nós mesmos, como artistas, encontramos também a voz de um tempo e de um espaço, damos continuidade a algo que nos precede, sabemos que a partir disso, negando isso ou bebendo disso virão outros. Voilá! Isso se chama: dar pasagem. Emprestar nossos corpos e vozes e mentes a alguma coisa maior que nós mesmos. Participar da vida, da existência. Estar inserido num contexto histórico, descobrindo e sendo quem se é.
Gosto de ver a forma inteligente como cada talento pode se desenvolver e trabalhar colaborativamente em prol de algo maior que cada um individualmente. Hoje existe curso de “gestão de pessoas”. O Dani poderia dar aula no doutorado. O trabalho que o teatro oferece tem a ver com relacionar-se. Conviver. Promover encontros. Promover experiências. Passar por experiências – transformar-se. Algo que visivelmente acontece e continua acontecendo e se ampliando a cada apresentação.
Ao entrar no espetáculo resgatei um sentimento muito antigo, de crer numa brincadeira. De se deixar levar. Eu sei que é brinquedo, mas eu brinco que acredito e mais que divertido isso é necessário na vida – caminhar na linha tênue da realidade e da ficção – jogar, entregar-se– mas sabendo que posso voltar a qualquer momento. Sabendo quem sou ou quem penso que sou para poder brincar de não saber mais. Eu sei que estou no Gasômetro, eu sei que as meninas douradas não são cavalos, eu sei que são lanternas – mas eu posso ver o carrosel. Além da imagem há um ambiente, outra atmosfera. Eu posso ver com os olhos, mas eu também posso ver com os poros, e eu também posso ver com as lembranças e eu também posso ver com as sensações da infância, e eu também posso ver com a respiração e eu também posso ver com múltiplos olhos, dos meus companheiros de platéia. Há celebração mais bonita?
Sentada em meu lugar de platéia, pensei nas nossas trajetórias, pensei na arte, pensei na indústria, pensei nas técnicas, pensei na junção de pessoas, pensei na nossa escolha, pensei no sentimento de se achar foda, pensei no sentimento de estar sozinho, pensei nas fábricas de ilusões que proporcionamos e vivemos, pensei nas manipulações sutis para se ter um lugar nesse sonho, para realizar sonhos, pensei na escala dos egos, pensei em hierarquias de poder, nas relações subjugadas, em que lugar desta cadeia as vezes cruel estamos inseridos, nas realizações pessoais e coletivas, na nossa geração, no nosso tempo, no nosso lugar no mundo, no meu lugar no mundo, nas grandes e pequenas escalas da mesma coisa, pensei no sentimento de sermos essencialmente sós, pensei nas situações que me acho foda, nas situações que me acho uma merda, nas situações que acredito nas ilusões, pensei o quanto da nossa vida é ilusão, pensei o quanto conseguimos seguir sem isso, o quanto desejamos ser reais, quanto conseguimos ter consciência, o quanto somos pequenos.
Obrigada por me permitir brincar e participar com vocês em Wonderland e por me fazer pensar no meu espaço na realidade: a maior ilusão de todas."

* Júlia Ludwig é bacharel em Direção Teatral (UFRGS) e diretora artística do grupo Barraquatro.
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