quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Breves comentários brasilienses sobre o "Breves Entrevistas..."

Seguem abaixo, dois comentários brasilienses sobre o nosso espetáculo; um deles escrito a pedido do Festival Cena Contemporânea e outro elaborado por um espectador que nos enviou suas palavras por email. 
E lembrando: confiram a nova temporada do BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS HEDIONDOS no Teatro de Arena a partir desta semana. Com novas cenas e elenco renovado!



"Breves Entrevistas com Homens Hediondos
Por Adriano de Angelis
Realizador Audiovisual e Gestor Cultural

Gosto de obras que nos permitem ampliar as fronteiras da experiência artística e existencial. Breves Entrevistas com Homens Hediondos, montagem do grupo gaúcho Teatro Sarcáustico, é desse tipo, e reúne cenas-entrevistas a partir do livro homônimo de contos do polêmico David Foster Wallace.

O uso de diferentes recursos de linguagem amplia os nossos sentidos para além da boa fruição estética. Não que o simples gozo não seja importante, nesse caso é mesmo fundamental, mas é sempre interessante presenciar uma montagem que consegue usar da técnica para acessar a ética.

Um espetáculo ágil, irônico e visceral, repleto de elementos bem construídos: uso ponderado de projeções audiovisuais de forma eficiente e complementar (nos momentos em que os vídeos são exibidos, surge um ar documental instigante); músicas bem selecionadas que pontuam dramaticamente momentos e transições, constroem “climas” sedutores e valorizam as cenas; o cenário modulável é criativo: grades sanfonadas que aprisionam e libertam (os atores e o público), na medida em que as narrativas se desenvolvem; os figurinos são semioticamente bem construídos, como no uso das máscaras de lutadores mexicanos, sugerindo que relacionamentos amorosos/sexuais são campos de batalha permanentes, físicos e psicológicos; há uma referência explícita à embriaguez quando, no palco, dezenas de garrafas verdes de cerveja reforçam a ideia de que o universo de contradições emocionais é normalmente carregado de impulsos entorpecidos; um ponto frágil é a prometida interatividade com o público, que não se traduz em algo muito real, sendo mais um jogo de cena. Mesmo que funcione apropriadamente ao clima de indagações que se estabelece com os espectadores, deixa a desejar. 

Relacionamentos humanos são sempre complexos e as Breves Entrevistas estão marcadas por agruras da vida, conduzindo os espectadores para universos íntimos alheios. Como em um thriller psicológico, a busca de sentido é pontuada por excitações e dores. Um espetáculo cheio de exageros sem ser exagerado. Até por isso, mobiliza pulsões intensas, mesmo que obscuras e cinzentas. Alguns poderiam dizer que é uma obra politicamente incorreta. Discordo, seria se soasse falso, o que não é o caso. 

Porém, cabe a pergunta: É legítimo que a arte amplie a nossa percepção sobre temas altamente degradantes e desumanos (como o relato de estupro) mesmo que para isso caminhe no abismo limite entre o questionamento e a contradição? 

As referências filosóficas que aparecem ao longo das cenas-entrevistas ajudam a sinalizar caminhos existenciais às diferentes pessoas. Enquanto isso, tensões sexuais funcionam como condutores narrativos, que nos lembram que o cotidiano, por mais rebuscado que possa parecer, ainda é, em grande parte, mantido como rotina em busca de outros prazeres.

O inconsciente é despertado por luzes, sons e coreografias “estimulantes”. Com momentos almodovarianos e trilha sonora tarantinesca, Breves Entrevistas é o tipo de espetáculo que flerta com a inteligência e pode até despertar invejas artísticas. Experimental até dizer “chega!”, alimenta algumas risadas nervosas e momentos de desconforto. Ponto! Consegue ser provocativo sem ser apelativo.

Em momento especial, centra suas questões no gênero feminino e nos ideais feministas. Na relação homem/mulher encenada, fica sugerida a metáfora (quem sabe machista) de que enquanto o homem tem o falo, a mulher fala. Ao fim do espetáculo, entrecortado num remix de outras frases, ouvimos ainda da atriz Guadalupe Casal: “Por que sou sempre eu que faço as perguntas?” Resposta: “Porque é a única mulher do grupo”.

Vida e Morte. Pulsões básicas. O prazer pode estar nas brechas."




"fico até meio sem jeito de escrever esse email e com medo de parecer sem noção, mas acho que um dos principais sentidos da arte é estabelecer um canal de comunicação especial entre as pessoas e permitir que elas sejam verdadeiras. dito isto, queria dizer que ter assistido à peça de vcs hoje foi marcante por vários motivos. o principal deles, claro, foi por ter tido a oportunidade de ver no teatro a obra do único autor que conseguiu me fazer gargalhar - na página 29 de "breves Entrevistas" - pra me fazer chorar 5 páginas depois (b.e. nº 11 06-96). e o detalhe mais sórdido é q a gargalhada ocorre justamente numa das entrevistas mais tristes, a do sujeito q não consegue aceitar que alguém o ame, já q ele tem um impulso bizarro q ele próprio abomina... enfim, coincidentemente ou não, eu li esse livro naquela que talvez tenha sido a pior fase da minha vida, há uns cinco anos, de modo que, sabendo da história do autor, quando comecei a ler um dos melhores contos de "oblivion", chamado "good old neon", eu resolvi não ler até o final pq aquilo estava me fazendo mal. desde então eu parei de ler DFW, pq apesar de aquilo ser genial, era ao mesmo tempo aterrador. pois desde então, o primeiro contato q tive com a obra do DFW foi hoje, por conta de vcs.(...) enfim, queria dizer q adorei quase tudo da peça, desde o cenário, passando pelas máscaras, pela trilha sonora (nunca tinha ouvido aquela versão da alanis, aliás demorei pra me dar conta q era uma música da alanis - que versão espetacular! - e as versões instrumentais de stairway to heaven, no surprises e street spirit tbm são foda!) até chegar no principal q foi a atuação de vcs, q vai melhorando com o desenvolver da peça até aquele final profundamente emocionante. (...) se vcs me permitem, gostaria de fazer apenas uma pequena sugestão pra vcs. os melhores momentos da peça, na minha opinião, são aqueles nos quais vcs menos se esforçam pra fazer o texto ipsis literis. quando vcs falam o texto mais certinho, soa um pouco como leitura dramatizada e tira um pouco da pungência do texto. os momentos mais brilhantes, na minha opinião ,são aqueles em q vcs seguem o texto, mas falam com mais liberdade, de uma maneira mais coloquial... outra sugestão (que não sei na verdade se tornaria a peça melhor, mas q acho q vale ser feita mesmo assim) seria abrasileirar um pouco o texto. pq esse não é um texto americano, é um texto universal, então acho q pode ser abrasileirado, na minha opinião. p. exemplo em vez de dizer "democrata", poderia dizer "petista", sei lá. ontem, na peça do enrique diaz, percebi q ele usou esse recurso e funcionou bem. vcs mesmo usaram a coisa do snowden e funcionou bem. enfim, não entendo nada de teatro, vi muito poucas peças na minha vida (talvez umas 20 em toda a minha vida), mas falo como um leigo q qdo vai ver uma peça , ler um livro ou assistir a um filme, quer esquecer q tá fazendo qualquer uma dessas coisas. quer simplesmente vivê-las. então, acho q esses recursos q mencionei aproximam o público do espetáculo. e vcs fazem isso com perfeição em vários momentos, enquanto em outros são mais literais, o q me fez lembrar q estava assistindo a uma peça. mas enfim, só estou me dando o trabalho de escrever essa sugestão pq realmente me envolvi muito com a peça. e achei muito emocionante vcs falarem de vcs mesmos no final da peça. na hora q o daniel colin pergunta pra plateia se ela sabe o q é sentir saudade de um filho de um ano e meio, fiquei com a impressão de q ele estava olhando pra mim (...) e tbm fiquei com a impressão de q a guadalupe olhou pra mim algumas vezes, pq eu fiquei olhando fixamente algumas vezes para os olhos e para o corpo dela. e acho q isso é uma das coisas mais incríveis do teatro, quando essa fronteira entre o ator e o personagem se torna nebulosa, ainda mais com um texto desses. afinal, só o fato de vcs estarem interpretando a obra do DFW já diz muito sobre vcs. e vcs todos são du caralho! deveria reler o q escrevi antes de enviar, mas vai assim mesmo, primeiro pq o sono já tá batendo e segundo pq fica mais autêntico. bueno, parabéns, muito obrigado e boa noite (não sei q hora do dia vcs vão ler isso, mas pra mim é boa noite, até mesmo pq eu já devia estar dormindo há um bom tempo, mas o impulso de escrever me impediu de dormir até agora...) ah, e muito sucesso pra vcs, pq vcs merecem demais! beijos e abraços, bruno"



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