domingo, 1 de novembro de 2009

A longa viagem



Cheguei ao teatro com o nível de expectativa elevadíssimo. Ainda comentei que havia esperado sete anos para ver essa peça. Claro, me dei conta depois de que estava confundindo os clássicos: A Ilíada tinha sido apresentada no Poa em Cena de 2002, e até hoje me arrependo até a alma de não tê-la visto. A Odisséia apareceu em um momento muito específico de nossas vidas. Nós, que estamos tentando construir longe do que é nosso algo de que algum dia possamos nos orgulhar e dizer que tudo isso valeu a pena. A direção de César Brie é precisa, os atores têm a técnica apurada, as imagens que constroem são impactantes, poéticas, funcionais. Batem lá no fundo do peito e ficam alojadas dentro de cada um, remexendo, incomodando... A saga de Ulisses é contada duplamente. Ulisses, o mortal seduzido por deusas. Ulisses, o estrangeiro que não sabe se vai ou se fica. Dor, saudade, perda, conquista. Estamos falando do mito, ou estamos falando do que acontece todos os dias em escritórios de imigração, em rios que são divisas internacionais, em trens de carga que cruzam extensas áreas? O cenário de bambu seco dá a tonalidade do espetáculo. Está suspenso, cor de terra, cortina vazada que muda completamente o ambiente a cada nova transição. Em cena, atores da Bolívia, do Brasil, da Itália, dos Estados Unidos comunicam a uma platéia de espanhóis, brasileiros, mexicanos, uruguaios... e no fundo todos sabem muito bem do que se está falando. Colonizadores e sudaquitos*, juntos, aproveitando o momento. Onde é, afinal de contas, o lugar de alguém nesse mundo tão grande (pequeno)? Essa deusa que seduz Ulisses quer realmente que ele fique? Continuará dando-lhe água, comida, dinheiro, emprego, vida, nessa ilha deserta enquanto outros estão chegando à sua casa, ao seu país, conquistando sua gente? Ou simplesmente lhe timbrará um carimbo na bunda deportadamente colocado quando ele não lhe servir mais (ou quando começar a exigir demais)? E sua casa será ainda sua? Seus filhos (irmãos) crescidos, seus pais já envelhecidos, seus amigos já casados e os filhos dos seus amigos já nascidos lhe perdoarão as ausências em casamentos, aniversários, funerais, festas, formaturas...? Quanto tempo conseguirá Penélope esperar?

Obrigado, Teatro de los Andes.

Maico Silveira, correspondente internacionáustico.


* Diz-se sudacos muito, muito pejorativamente para essa gentinha que vem da América do Sul (ou seja, do México para baixo!) buscar uma vida melhor aqui na Espanha. Nós, como bom sudaquitos que somos, já adaptamos seu uso para nos chamarmos assim carinhosamente.
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