segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Os olhos de Fernanda Petit sobre os homens hediondos

(Foto: Luciane Pires Ferreira)

Fernanda Petit, grande atriz e amiga do Sarcáustico, gentilmente escreveu suas impressões sobre o "Breves Entrevistas com Homens Hediondos" (na verdade, ela sempre escreve sobre nossos trabalhos, com uma precisão invejável!). Abaixo, as palavras sempre doces de Petit:

saio do teatro de arena com a sensação de ter compartilhado aquelas cervejas
saio com um gosto um tanto amargo, como se tivesse acordado de uma noite triste e conturbada

saio como se estivesse chovendo na rua e eu não tivesse guarda chuva e não quissesse me molhar neste dia

saio achando que há pessoas hediondamente feias, sujas e dolorosas que podem ser belas
belas porque alcançam de alguma maneira meu peito já tão conhecido por sensível
sou jogada numa arena, num ringue de luta

posso atravessar com meu pé que fica na ponta do palco ao olhar a peça posso e sinto as respirações, os olhos inseguros e ao mesmo tempo firmes na estreia do filho hediondo que nasce
é um filho que nasce fumando, que nasce já gritando, que nasce já crescido para o mundo com pose de valente e frágil como vidro,
já nasce fazendo sexo em todas posições, já nasce negando o amor, mas o querendo

eu vejo um bando de homens sujos

eu vejo uma mulher que se vende

eu vejo o grande show num pequeno lugar

eu vejo pessoas em cabines presas se confessando

eu vejo pessoas deitadas em divãs

eu vejo pensando falando com um deus bêbado e indagando ao céu

eu vejo pessoas saindo do trabalho com seu terno bem bonito e comendo prostitutas escondido da mulher

eu vejo um cara preso que vê no braço a imagem do seu pênis

eu vejo uma menina mulher fumando falando meu nome, tentando provocar meu riso e trazendo mais nervoso e a vontade do amor
eu te digo mulher: os homens (a grande maioria) não entendem nosso grito

eu te digo: talvez eles vão sempre brigar num ringue por você ou por eles

por que vocês me arrebentam falando de amor, seus sarcaústicos?
não somente o amor de homem mulher... mas um amor num todo. um amor a você mesmo, um amor ao do lado,um amor ao filho

um cotoco falando de sexo e um diretor (ou um carcereiro) apressando o contar de sua história.
as garrafas batendo na madeira, a cerveja que respinga, o cheiro de todas coisas repugnantes num espaço.
o garoto bonito se torna feio e o durex que é um durex se torna feio
um cara o elevador falando de amor, falando dela...
você não tem impressão que quando se ama parece que você tá num filme do woody allen falando da sua garota(o) para câmera? eu sim!

uma garota mulher falando de sexo querendo essa tal libertação.
libertação do que porra? libertem meu coração, não abram somente minhas pernas.

um homem que trata pessoas como bichos. galinha-galo. procriamos.
um nojo asqueroso. um medo na cadeira vermelha. um olho feminino assustado.
Caro sr que degusta licor até quando você vai ser assustadoramente bom em cena? até quando eu vou ter que pensar: petit é teatro e daniel não fará nada de mal pra vc rsrsrs (você é incrível amigo)

Incrível ao ponto de fazer o coração começar igual papel no ínicio da cena do holocausto e virar papel amassado ao fim.
Eu pensando cadê o choro prometido colin? e de repente me via aguada no corpo ao ouvir o texto. ao sentir tu sentado junto a gente no arena.
com a voz embargada, falha que seja... mas aquele choro contido.
Será? Será que se eu morrer agora ninguém vai ligar pra isso?

Será?

Então a dúvida é hedionda.
Eu saio horrivelmente embargada e tomo uma caipirinha. Aí eu sorrio no fim, pois vejo meu amigo ator falando do filho que virá, da cor preferida de um, do apelido, do sorriso, da garota que ama, do que é importante para cada um... uma entrevista mais amena e sinto: ah que bom que eles existem...
sim sou piegas, mas que bom que vocês existem, grupo sarcáustico...
o show, a peça acaba e eu sigo com vocês para um bar festejando o bom teatro.

vida hediondamente alegre para os hediondos.


fernanda petit*

(*) Fernanda Petit é atriz de espetáculos como "Ifigênia em Áulis" (Luciano Alabarse), "A Cãofusão" (Lucia bendati) e "Solos Trágicos" (Roberto Oliveira), dentre outros. Vencedora dos Prêmios Braskem e Tibicuera de Melhor Atriz.


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