segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Comentário de Antonio Hohlfeldt para "Breves Entrevistas com Homens Hediondos"

Necrópsia do contemporâneo


"Mescla de dramaturgo e diretor, Daniel Colin está sempre surpreendendo, provocando e produzindo admiração. É o caso deste inesperado e excitante Breves entrevistas com homens hediondos, baseado em livro homônimo do norte-americano David Foster Wallace. Wallace é causticamente mortal, e Colin, atuando como dramaturgista e depois diretor, procurou ser o mais fiel possível ao escritor. Para tanto, misturou teatro com cinema, buscando aquela mesma eventual veracidade que os textos do autor norte-americano tentam produzir no leitor. Guardadas as proporções, não sei quem funcionou melhor. O texto literário deve ser capaz de sugerir. O espetáculo cênico precisa mostrar, mas isso não significa que deve ser evidente. Daniel Colin conseguiu equilibrar-se nesta tensa corda estendida de um lado a outro do precipício: sua opção de linguagem cênica não lhe permitira titubeios: ou acertava, ou errava. Colin acertou, fazendo verdadeira necrópsia da contemporaneidade.

Durante cerca de duas horas, num teatro absolutamente lotado (era a última noite da temporada), ficamos presos aos diferentes personagens (derrotados) de um universo desestruturado, em que todos são, simultaneamente, carrascos e vítimas. A cenografia quebra qualquer expectativa de espetáculo desde o início: usa-se o filme em preto e branco, projetado em espaços perfurados e rompidos, através de cujos buracos as imagens fluem de um para outro plano. Depois, os personagens surgem ao vivo (ao vivo? Por vezes parecem fantasmas...) e, de certo modo, gritam/jogam/expelem seus textos, num jogo permanentemente destruidor. Há pouco espaço para a humanidade, ali, embora todos a busquem desesperadamente.

Colin vem insistindo numa reflexão sempre contundente em torno destes tempos que se dizem pós-modernos. Por isso mesmo, seus espetáculos são sempre inovadores. Recentemente - e isto pode ser visto neste Porto Alegre em Cena - ele falava em Michael Jackson - não só pelo cantor, mas para refletir sobre a massificação e o consumo alienante. Agora, volta-se para uma reflexão mais drástica sobre a alienação e a reificação. Na trilha do escritor por que optou, toca em temas complexos e polêmicos. Vai da ironia ao quase trágico. Mescla narrativas cinematográficas com encenações que ora parecem processos a que assistimos enquanto voyeurs, ora são apenas uma espécie de pesadelos que ganham corporeidade. O elenco, composto por três atores e uma atriz, é cuidadosamente dirigido e marcado, e cumpre rigorosamente suas marcas. O próprio Daniel Colin participa deste conjunto, e, aqui, surge mais um mérito seu: em geral, espetáculo escrito, dirigido e interpretado pela mesma figura resulta em confusão e frustração. Não é este o caso. Nas vezes em que o dramaturgo-diretor entra em cena, mantém-se o mesmo ritmo e a mesma perspectiva de espetáculo que nos demais momentos. No conjunto dos fragmentos, percebe-se claramente a unidade buscada e concretizada.

É provável que a própria proximidade física que o público tem com os intérpretes ajude na criação deste clima de sufocamento que marca todo o espetáculo. O que garante, uma vez mais, outro ponto para o grupo: cada espetáculo necessita de um determinado espaço cênico, coisa de que poucos diretores teatrais se apercebem. Daniel Colin soube escolher um espaço restrito e restritivo, bem ao contrário do que ocorreu no trabalho anterior, que ocorria em ampla localidade da Usina do Gasômetro, com deslocamentos constantes do público.

A se lamentar, apenas, não sei se por culpa do grupo ou da administração do Arena, o atraso de mais de 20 minutos no início do espetáculo, verdadeiro desrespeito com o público."


Post original no Jornal do Comércio aqui.


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