sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O que Renato Mendonça encontrou em Wonderland...

Renato Mendonça, jornalista com longa experiência na cobertura de eventos culturais, acabou de postar em seu novo blog suas impressões acerca do nosso espetáculo "Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá". Confiram abaixo o que ele comentou e aproveitem para acessar o "Relato Mendonça": lá vocês encontrarão textos dramatúrgicos que o Renato escreveu, considerações de política cultural, comentários de peças e outras coisas bem legais.


(Foto: Patrícia Dyonísio)

O que encontrei em “Wonderland”

por Renato Mendonça

A expressão é antiga, de 1979, da lavra de Gilberto Gil: “Todo o mundo merece um salário-mínimo de cintilância”. Vou adaptar para bolsa-família de cintilância, para ficar mais atualizado. Mas a moral não muda: o compositor baiano, com aquele jeito que Deus deu, disse que vida não tem sentido sem momentos de revelação emocional e/ou estética. Vou falar de um, que tive ao assistir a “Wonderland – E o que M. Jackson Encontrou por Lá”.

Para quem não viu (mas deve ver), a montagem do Teatro Sarcáustico reconta a história de Michael Jackson com devaneios pelas fábulas de Peter Pan e de Alice. Na primeira aproximação, seria uma encenação pós-dramática: o espaço cênico é uma grande tenda retangular montada no mezanino da Usina do Gasômetro, o texto é fragmentado, repleto de citações e referências, a música é tocada ao vivo, os personagens são lineares, quase tipos. Com exceção da tenda, a descrição se presta ao mundo de qualquer criança… e de Michael Jackson. E de todos nós, como vamos descobrindo ao longo das mais de duas horas e meia de peça. Sim, despencamos no buraco como Alice, e a jornada será um jogo de espelhos entre nós e o ídolo, entre a fama planetária e a miséria emocional.

O que faz “Wonderland” tão diferente é que a encenação proposta pelo diretor geral Daniel Colin é perfeccionista, barroca, ambígua, exigente, talentosa e fascinante como seu inspirador. Isso fica claro em uma das primeiras cenas, quando praticamente todo o elenco antecipa com dança e música a celebração que recém começava. As coreografias de Diego Mac e o rigor dos atores me fizeram sentir como numa Broadway à beira do Guaíba. Exagero? Pior (melhor) que não.

No programa do espetáculo, os dramaturgos Colin e Felipe Vieira Galisteo lembram que o “Wonderland” está sendo gestado há cinco anos, talvez isso explique o cuidado que cerca todos os detalhes (bem como Michael gostava). O cantor é vivido por quatro atores, em diferentes fases de sua vida (Rodrigo Shalako, Rossendo Rodrigues, Ricardo Zigomático e Tatiana Mielczarski – todos muito bons, com destaque para Rossendo), o que expõe radicalmente as mudanças de aparência do astro. A ocupação da grande tenda é feita com habilidade, com cortinas que servem para compartimentar o ambiente, às vezes com transparência. A música ao vivo, destaque para Marcão Acosta na guitarra, mistura high tech com low profile. Os figurinos de Daniel Lion são um exagero – na justa medida de Wonderland.

O que mais me impactou foi, dentre tantos estímulos, o comprometimento do elenco e o fato de que, em uma encenação tão explosiva e potencialmente dispersiva, os movimentos dos atores fossem sempre indispensáveis, como uma homenagem particular a Michael, um mestre na arte de buscar o gesto certo. Mérito de Maico Silveira (direção de atores) e Tainah Dadda (assistente de direção).

“Wonderland”, como o famoso inquilino do rancho “Neverland” é artisticamente pretensioso. E se permite até fazer humor com referências bem localizadas, como em uma cena em que coloca em disputa a Academia, o Crítico e a Vanguarda. Ou quando faz a entrada triunfal das correntes de teatro gaúcho – é de rolar de rir. Há imagens inesquecíveis, como as de Michael, Prince e Madonna, cada um a bordo de um carrinho de súper, colidindo como se estivessem em um autochoque, disputando um lugar no pódio da fama. Ora localista, ora universal, oscilando entre a Terra do Nunca e o País das Maravilhas, “Wonderland” encontra seu caminho pela busca constante do fascínio do espectador. E pela irreverência explícita – a ascensão e queda do Rei Pop carnavalizada sem piedade, mas com veneração.

Há cenas, entretanto, em que Michael Jackson perde o passo, especialmente na segunda parte de “Wonderland”. Uma cena com Sandy e Junior, outra cena em que se enfatiza um erotismo explícito e até o julgamento de Jackson no tribunal parecem um moonwalk longe demais, parecem expor a incapacidade de sacrificar cenas que brilham per si em favor do ritmo geral do espetáculo.

A aceleração insana da encenação também acaba por contaminar o encaminhamento da morte de Michael - depois de tantas chicanas, de tanta teatralidade, é impossível ao público sossegar o facho e conceder o compromisso emocional indispensável para presenciar a morte do ídolo, prejudicando o clímax. Claro que Colin e sua equipe pensaram nisso - mais não digo para não tirar a surpresa e o prazer de quem for assistir a “Wonderland” em 2011.

Não sei bem o Michael Jackson encontrou em “Wonderland” – o cara era meio confuso, não é? -, já eu encontrei um dos melhores espetáculos do ano.
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