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terça-feira, 5 de junho de 2012

"Breves Entrevistas" aposta em teatro contido mas vigoroso, por Fábio Prikladnicki



Baseada no livro homônimo de contos de David Foster Wallace (1962 — 2008), a peçaBreves Entrevistas com Homens Hediondos é uma ousada tentativa do Teatro Sarcáustico de transpor para a cena a obra do cultuado escritor americano. A montagem, que estreou em 2011, esteve em cartaz durante o mês de maio como um dos destaques do 7º Fesival Palco Giratório Sesc/POA.

Com integrantes relativamente jovens, o Sarcáustico é um grupo que tem surpreendido o público gaúcho a cada produção. Breves Entrevistas... é a resposta à interrogação que se impôs depois da ampla repercussão da peça Wonderland e o que M. Jackson Encontrou por Lá, grande vencedora do Prêmio Açorianos de Teatro de 2010, amealhando as categorias de melhor espetáculo, direção (Daniel Colin), figurino (Daniel Lion) e produção (Rodrigo Marquez, Fernanda Marques e Palco Aberto). A questão era: e agora?
Pois Breves Entrevistas... contraria as expectativas com uma produção contrastante com a extravagância da anterior. Especialmente desenhada para o espaço econômico do Teatro de Arena, com a plateia distribuída em três dos quatro lados do palco, a peça mostra a versatilidade do Sarcáustico. A contenção não elide o vigor que tem caracterizado os trabalhos do grupo. Tomadas por uma atmosfera silenciosamente soturna, com personagens que parecem sempre prestes a fazer uma revelação assustadora, as cenas são temperadas com sons perturbadores — garrafas de cerveja que se chocam, rangidos, grunhidos.

O foco em Daniel Colin — diretor dos trabalhos anteriores e um dos atores mais talentosos do Estado — é compartilhado aqui com os demais integrantes: Guadalupe Casal, Ricardo Zigomático e Rossendo Rodrigues (e a atriz convidada Tatiana Mielczarski, na temporada do Palco Giratório). Eles se revezam na direção e na atuação das cenas, que são histórias independentes. O resultado é um espetáculo dramaticamente poderoso, às vezes sardônico, mas na maior parte do tempo lúgubre. Como no excelente monólogo final de Daniel Colin, uma reflexão sobre a fronteira tênue entre os homens hediondos e nós.
Link para a matéria da ZH aqui.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O que Renato Mendonça encontrou em Wonderland...

Renato Mendonça, jornalista com longa experiência na cobertura de eventos culturais, acabou de postar em seu novo blog suas impressões acerca do nosso espetáculo "Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá". Confiram abaixo o que ele comentou e aproveitem para acessar o "Relato Mendonça": lá vocês encontrarão textos dramatúrgicos que o Renato escreveu, considerações de política cultural, comentários de peças e outras coisas bem legais.


(Foto: Patrícia Dyonísio)

O que encontrei em “Wonderland”

por Renato Mendonça

A expressão é antiga, de 1979, da lavra de Gilberto Gil: “Todo o mundo merece um salário-mínimo de cintilância”. Vou adaptar para bolsa-família de cintilância, para ficar mais atualizado. Mas a moral não muda: o compositor baiano, com aquele jeito que Deus deu, disse que vida não tem sentido sem momentos de revelação emocional e/ou estética. Vou falar de um, que tive ao assistir a “Wonderland – E o que M. Jackson Encontrou por Lá”.

Para quem não viu (mas deve ver), a montagem do Teatro Sarcáustico reconta a história de Michael Jackson com devaneios pelas fábulas de Peter Pan e de Alice. Na primeira aproximação, seria uma encenação pós-dramática: o espaço cênico é uma grande tenda retangular montada no mezanino da Usina do Gasômetro, o texto é fragmentado, repleto de citações e referências, a música é tocada ao vivo, os personagens são lineares, quase tipos. Com exceção da tenda, a descrição se presta ao mundo de qualquer criança… e de Michael Jackson. E de todos nós, como vamos descobrindo ao longo das mais de duas horas e meia de peça. Sim, despencamos no buraco como Alice, e a jornada será um jogo de espelhos entre nós e o ídolo, entre a fama planetária e a miséria emocional.

O que faz “Wonderland” tão diferente é que a encenação proposta pelo diretor geral Daniel Colin é perfeccionista, barroca, ambígua, exigente, talentosa e fascinante como seu inspirador. Isso fica claro em uma das primeiras cenas, quando praticamente todo o elenco antecipa com dança e música a celebração que recém começava. As coreografias de Diego Mac e o rigor dos atores me fizeram sentir como numa Broadway à beira do Guaíba. Exagero? Pior (melhor) que não.

No programa do espetáculo, os dramaturgos Colin e Felipe Vieira Galisteo lembram que o “Wonderland” está sendo gestado há cinco anos, talvez isso explique o cuidado que cerca todos os detalhes (bem como Michael gostava). O cantor é vivido por quatro atores, em diferentes fases de sua vida (Rodrigo Shalako, Rossendo Rodrigues, Ricardo Zigomático e Tatiana Mielczarski – todos muito bons, com destaque para Rossendo), o que expõe radicalmente as mudanças de aparência do astro. A ocupação da grande tenda é feita com habilidade, com cortinas que servem para compartimentar o ambiente, às vezes com transparência. A música ao vivo, destaque para Marcão Acosta na guitarra, mistura high tech com low profile. Os figurinos de Daniel Lion são um exagero – na justa medida de Wonderland.

O que mais me impactou foi, dentre tantos estímulos, o comprometimento do elenco e o fato de que, em uma encenação tão explosiva e potencialmente dispersiva, os movimentos dos atores fossem sempre indispensáveis, como uma homenagem particular a Michael, um mestre na arte de buscar o gesto certo. Mérito de Maico Silveira (direção de atores) e Tainah Dadda (assistente de direção).

“Wonderland”, como o famoso inquilino do rancho “Neverland” é artisticamente pretensioso. E se permite até fazer humor com referências bem localizadas, como em uma cena em que coloca em disputa a Academia, o Crítico e a Vanguarda. Ou quando faz a entrada triunfal das correntes de teatro gaúcho – é de rolar de rir. Há imagens inesquecíveis, como as de Michael, Prince e Madonna, cada um a bordo de um carrinho de súper, colidindo como se estivessem em um autochoque, disputando um lugar no pódio da fama. Ora localista, ora universal, oscilando entre a Terra do Nunca e o País das Maravilhas, “Wonderland” encontra seu caminho pela busca constante do fascínio do espectador. E pela irreverência explícita – a ascensão e queda do Rei Pop carnavalizada sem piedade, mas com veneração.

Há cenas, entretanto, em que Michael Jackson perde o passo, especialmente na segunda parte de “Wonderland”. Uma cena com Sandy e Junior, outra cena em que se enfatiza um erotismo explícito e até o julgamento de Jackson no tribunal parecem um moonwalk longe demais, parecem expor a incapacidade de sacrificar cenas que brilham per si em favor do ritmo geral do espetáculo.

A aceleração insana da encenação também acaba por contaminar o encaminhamento da morte de Michael - depois de tantas chicanas, de tanta teatralidade, é impossível ao público sossegar o facho e conceder o compromisso emocional indispensável para presenciar a morte do ídolo, prejudicando o clímax. Claro que Colin e sua equipe pensaram nisso - mais não digo para não tirar a surpresa e o prazer de quem for assistir a “Wonderland” em 2011.

Não sei bem o Michael Jackson encontrou em “Wonderland” – o cara era meio confuso, não é? -, já eu encontrei um dos melhores espetáculos do ano.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Qual o real papel da crítica?

Este parece um assunto bastante pertinente... O Camilo de Lélis e o Luciano Alabarse escrevem sobre a questão da crítica nos últimos "Usina do Porto" (se não me engano...). O Roberto Oliveira sempre lamenta a morte do Claudio Heemann. E, agora, passa isso pela minha cabeça, pois acabei de redigir um "comentário" sobre a peça "Reflejos", a qual assisti ontem e escrevi sobre para o Blog do Porto Alegre em Cena. Não sou um crítico e muito menos me considero um. Acredito que a crítica precisa ser conhecedora do assunto e, sobretudo, mente aberta. Caso contrário, torna-se apenas "achismos" ao vento... (Lembro-me de uma "crítica" do espetáculo "Roberto Zucco" do meu querido Felipe Vieira, na qual o "crítico" sequer conhecia o Koltés... Triste!). Além do que, prá mim, a melhor crítica é aquela que suscita reflexões sobre a obra, que gere discussão (e não bate-boca... reside aqui uma pequena diferença...).
Penso portanto na ausência de críticos preparados a esta função em Porto Alegre e, pior ainda, na ausência de troca de reflexões entre os próprios artistas sobre suas obras; sobram apenas frases de "achismos" lançadas a torto e a direito em jornais culturais e blogs da vida. Sem querer menosprezar a atitude de todos aqueles que escrevem sobre espetáculos teatrais quando a maioria das pessoas sequer deseja ir ao teatro, adoraria que este textos impressos ou postados fossem melhor discutidos e assimilados, bem como - e sobretudo - os espetáculos em questão...

Finalizo minhas reflexões (nã0-finalizadas) com algumas frases, pelas quais cruzei os olhos durante estes últimos dias. Lanço-as aqui para que possamos discuti-las:

"A crítica é fundamental para o crescimento dos grupos e dos indivíduos. Por mais que, às vezes, soe injusta e cruel, a percepção crítica honesta é uma bússola da qual não podemos abrir mão." (Luciano Alabarse, diretor e coordenador do Porto Alegre em Cena - "O poder transformador da milenar arte teatral").


"A crítica tem uma importância fantástica no fazer teatral. É fundamental tanto para os criadores quanto para o público." (Zé Adão Barbosa, ator e diretor - "O poder transformador da milenar arte teatral").


“O papel dos críticos é fundamental, mas se a arte dependesse apenas dos críticos seria estéril. Não haveria possibilidade de avanço ou de diálogo.” (Mário Chagas, poeta, museólogo, diretor de Processos Museais do Instituto Brasileiro de Museus - Jornal “Zero Hora”: Segundo Caderno, p. 6. 24/08/2010).

Simpática, não?


E aí? Concordam ou discordam de mim ou de algum dos colegas acima?



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Hohlfeldt escreve sobre JOGO DA MEMÓRIA

Pessoal, hoje saiu no Jornal do Comércio-RS a crítica que o Antônio Hohlfeldt escreveu sobre o nosso JOGO DA MEMÓRIA. Dêem uma lida abaixo e vejam se concordam com ele.
Ah, em tempo: hoje fizemos um levantamento de borderôs e descobrimos que o JOGO, nesse 1 ano de existência, foi assistido por mais de 6.800 espectadores, sendo que 6.000 foram crianças! Maravilha!!!

Foto: Divulgação/PMPA


Um jogo para emocionar



Jogo da memória é dessas boas peças dirigidas às crianças, nem tão pequenas assim, e que agradam também aos adultos. A peça tem a qualidade de trabalhar com um vocabulário e algumas experiências que são verdadeiramente universais. Valendo-se de um flash-back, o narrador relembra os momentos de infância quando, aos 12 anos, por motivos de mudança de seus pais da cidade em que morava, perde seus melhores amigos, três meninos e uma menina. A partir de então, a peça retorna ao passado e temos uma narrativa dentro de outra narrativa, técnica que o dramaturgo volta a se valer, mais ao final da peça, quando ainda uma terceira história é introduzida.

Isso que poderia gerar confusão e dificuldade de compreensão, contudo, é tratado com muita objetiva e um bom controle do dramaturgo, de modo que cada história vai tendo o seu desfecho e, ao final, a gente se dá conta que a meta do escritor foi atingida: ele conseguiu falar de sua infância de modo a falar da infância de todos nós que ali nos encontramos.

Em geral, estas situações em que um autor é também diretor da peça e, ainda por cima, seu intérprete, alcança péssimos resultados. Não é, contudo, o que ocorre aqui, talvez porque o Teatro Sarcáustico tenha o mérito de trabalhar verdadeiramente em grupo. O cenário coletivo, diga-se de passagem, é tão simples quanto bem instrumentalizados: algumas lonas esticadas, como camas de campanha, trocadas de lugar e de posição, servem para se projetarem sombras chinesas ou separarem espaços variados, quando não os criam, mesmo. Há uma bonita fantasia em todo o trabalho, o que dá uma dinamicidade e um sentido de verdadeiro, garantindo sua comunicabilidade, que é um dos elementos essenciais para o teatro dirigido às crianças.

O elenco trabalha unitariamente, e nem mesmo a deficiência física apresentada em cena, a gente consegue descobrir se é da personagem ou do ator. Essa verdade interna de todo o trabalho emociona e mesmo que inconscientemente, envolve a platéia que acompanha, com curiosidade, quando não com torcida, as peripécias dos garotos, quando eles fogem de casa em busca de um lugar em que poderiam constituir sua própria comunidade: afinal, “eles já eram quase adultos”.

O cuidado com a linguagem verbal compreensível; a atenção para com imagens e referências acessíveis. O respeito para com o espectador, na medida em que se joga com ele, provocando-lhe a curiosidade e tomando-lhe a atenção, tudo isso faz de Jogo da memória um belo espetáculo que, não por acaso, recebeu premiações no ano passado, quanto estreou em primeira temporada: Melhor Direção, Melhor Ator Coadjuvante – o próprio diretor – Melhor Cenografia e Melhor Dramaturgia.

A encenação, ritmada, contínua, inteiramente aberta às vistas da gurizada, encanta exatamente porque reproduz, com fidelidade, a perspectiva lúdica que sempre nos envolve e emociona. Daí o resultado positivo, animador, deste trabalho, que mostra, uma vez mais que teatro para crianças exige, sobretudo, respeito para com a criança, e nada mais.

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